
Bill Viola (artista plástico) e Peter Sellars (encenador) são dois artistas cujas obras aprecio bastante. O primeiro, pelo sábio uso do vídeo e a incursão na temática religiosa com noções de tempo misturadas. O segundo, pelo humor (o "Don Giovanni" encenado por Sellars e passado em Brooklyn, com 2 blacks (em vez do criado e senhor de folhos) a injectarem-se e as donzelas transformadas em donas de passeio, ficou-me na memória como um dos espectáculos mais "modernistas" da altura. Sellars tem a tendência (às vezes forçada e inconsequente, confesso) de passar as óperas para cenários contemporâneos ("Cosi Fan Tutti" em Miami Beach, "The Rake´s Progress" numa prisão de alta segurança, "Theodora" numa seita religiosa, e por aí....). Mas não deixa de ser divertido e inteligente.
No início do ano, os dois artistas voltaram a juntar-se para o mega Tristão e Isolda, de Wagner. Amado por muitos, odiado por tantos outros burgueses sem paciência para actualizações operáticas, o público rendeu-se maioritariamente a este casamento artístico. O cenário criado por Viola era composto por um écran onde eram gigantescamente projectadas imagens mais ou menos coincidentes com a história de cada acto, com algum delay. Por e nascer do Sol, duplos dos cantores em separado e em rituais de entrada em tinas de água que os une depois numa multiplicação de partículas, a imagem final de Isolda num mar profundo (enquanto a cantora morre em palco), a queda de água sobre o corpo morto de Tristão, etc. Algum do material faz parte do "The Tristan Project" realizado antes por Viola, mas diz quem viu e pelo que li, que em palco o espectáculo levava o conceito wagnereano de "arte total" à letra, perfeitamente fechado pela encenação de Sellars.
Talvez em Novembro, em Paris.








