26 dezembro 2005

Algumas notas sobre "Odete", de João Pedro Rodrigues.
Caros leitores, cá está finalmente o post especial, dado ao apreço que tenho já demonstrado pelo filme. Agora justifico-o por escrito. Para não maçar quem não estiver interessado, o post está com um "continue a ler". Ou seja, é só clicar e o post continua. Também limpei o texto de links e arrumei-os para o final se estiverem interessados em ver mais.
Aguardo feed-back e espero que gostem. Estreia esta quinta, 29 de Dez.


"Odete" e o melodrama - André Murraças
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Quando no filme “Breakfast at Tiffany's”, Paul Varjak diz a Audrey Hepburn: “I love you”. E ela lhe responde um seco “E então?”, logo retorquido por um segundo “E então?...” de Paul Varjak, desaparecem as dúvidas que tínhamos sobre estes dois desajustados que tentam um simples momento de ternura. Em “Odete”, o novo filme de João Pedro Rodrigues, o ser obrigado a ficar desajustado, leva à loucura e ao vazio emocional. E quando a morte e o desejo se misturam nos corpos, então aí entramos numa zona mais perigosa. Se quisermos, “Odete” começa, onde “Breakfast at Tiffany's” acabou.
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Corpo e espírito
Começa com um close-up de um beijo. Uma das faces tem a barba por fazer. A outra deixa ver umas hirtas mas curtas patilhas. O plano é longo. A câmara afasta-se e mostra dois rapazes, Rui e Pedro, despedindo-se na noite em comemoram o seu aniversário de namoro “até que a morte” os separe. Rui entra para a discoteca onde trabalha. Minutos depois liga a Pedro, que segue para casa ao volante. Pedro tem um acidente de carro no qual morre. Rui corre mas encontra Pedro morto. Chove.
Ainda no início do filme, há uma sequência onde vemos os corpos nus de Alberto, urinando, e de Odete, sua namorada, passeando-se e fumando. A nudez dos dois corpos é total e preenche uma apertada sub-cave. São carne entre lençóis com intenções diferentes. Odete quer entregar o seu corpo a uma futura gravidez. Alberto dispensa a criança mas não o corpo de Odete. A recusa constante de Alberto faz com Odete termine a relação.
Odete e Rui não se conhecem. Vão encontrar-se mais à frente no velório de Pedro, numa troca de olhares por cima do corpo do falecido, onde o realizador João Pedro Rodrigues inaugura, num duplo close-up dos olhos dos protagonistas, o caminho cruzado da entrega dos dois ao preenchimento das suas vidas, através da entrega à auto-destruição e degradação emocional (Rui) e da invenção de uma gravidez (Odete).
Mais distante da escatologia de “O Fantasma” (1999), mas nem por isso menos obstinado, “Odete” volta ser o desejo filmado dos corpos marginais que, independentemente da sua orientação sexual, são antes movidos por uma convicção tornada obsessão.
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Diz o médico
Um psiquiatra meu conhecido disse-me que Odete deseja Rui porque ele tinha um namorado. Odete vê as eventuais relações sexuais dos rapazes possíveis na sua pessoa se ela incorporar o falecido.
Rui vê em Odete, o espírito do falecido namorado tornado real. Curiosamente, a sua cedência a Odete começa por ser hostil e só por fim carnal.
Se Odete preenche o seu corpo com o espírito de Pedro para ao longo do filme o vir a reencarnar lenta e totalmente, começando numa gravidez e acabando na personagem do falecido; Rui desmorona-se emocionalmente de diversas maneiras físicas, procurando escape em encontros sexuais anónimos.
Rui e Odete chegarão a unir-se através do espírito materializado de Pedro, num plano final que radicaliza por completo a personificação de Odete enquanto Pedro, e o desespero de Rui em vê-la como o ex-namorado.
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A reinvenção do melodrama
Mas como falamos de cinema, a medicina terá de ser mais folgada e deixar espaço para as imagens e o texto respirarem. (Não será por acaso que no fim do filme, Alberto vai visitar a namorada ao hospital e lança um surpreso “Então ´tá maluca...”, como se realmente isso nunca tivesse sido considerado.) Porque há neste “Odete” uma poesia mórbida. Um desenvolvimento de personagens complexo e um argumento que dificilmente teria um diagnóstico médico.
Como no cinema de Douglas Sirk, as crenças e vontades das personagens criam os seus próprios fossos e becos.
Odete acredita que está grávida de Pedro, antes de começar o processo doentio de absorção da personalidade do rapaz. Contacta a sogra, fala com o morto na campa, deseja-o sobre a terra molhada do cemitério, acaricia a barriga, compra as roupas e gasta dinheiro em objectos para adormecer um inexistente bebé.
Já Rui seria mais um coração despedaçado se Odete não se cruzasse com ele e o confrontasse usando no dedo a aliança do ex-namorado. Rui beija-a inexplicavelmente como se beijasse Pedro. Rui vê em Odete traços psicológicos (já que os físicos só aparecerão no final) e a atracção macabra não será consumada da melhor maneira. Num complexo desenvolvimento de personagens, Rui e Odete são efectivamente os “2 drifters” / “2 à margem” alcunhas que o filme rouba assumidamente a um outro filme “Breakfast at Tiffany's”/”Boneca de Luxo” (1961), onde Audrey Hepburn brilhava. João Pedro Rodrigues reinventa o modelo de Sirk, sem o final feliz, pois as duas personagens terminam vitimizadas por si mesmas, de tão entregues que estão à sua crença. À maneira de Bresson, numa Lisboa de hoje, João Pedro Rodrigues passa por cenários versáteis excelentemente fotografados por Rui Poças que tanto define com nitidez os planos nocturnos como ressalta todas as cores das flores das campas fúnebres (ou os antúrios bem à Mapplethorpe), em planos cuidadosamente trabalhados (o engate entre os dois carros com a cara do actor apenas visível no retrovisor, a cena do velório ou a sequência de adoração do anel entrecortada com os patins no supermercado), demonstram igualmente um consistente trabalho de montagem de Paulo Rebelo. E o tom mórbido e pesado está ainda acentuado numa taciturna banda sonora (escolhida por Frank Beauvais) que vai de Lydia Lunch a um cover dos Scalla, um coro juvenil que interpreta por breves momentos o problemático Smells Like Teen Spirit de Nirvana, sem esquecer o tema de do filme “Breakfast at Tiffany's” – Moon River.
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O cinema dentro do cinema
“Odete” tem marcas das horas que João Pedro Rodrigues trocou de aulas por filmes na Cinemateca. Não se tratando de um filme referencial, não deixa de ter aqui e ali, pontos em que o cineasta presta homenagem a antecessores seus. O quarto de Pedro (um alter-ego do realizador?) está cheio de cartazes de cinema, a marginalidade das personagens lembra Fassbinder e alguma da recente vaga francesa onde estão incluídos, por exemplo Christophe Honoré e, talvez, um Ozon mais anos 90. Mas “Odete” é muito própria e João Pedro Rodrigues está a conseguir marcar o seu estilo devagar. São já identificáveis sinais seus e até surge a auto-citação, na fuga de Odete no telhado do hospital que lembra a derradeira escapadela em “O Fantasma”.
Haveria ainda os mortos-vivos de Tourneur, o “Gata em Telhado de Zinco Quente”/” Cat on a Hot Tin Roof” ou o “Carrie” de Palma, ou os zooms que Rodrigues parece recuperar de Robert Altman para acentuar o anel dos amantes ou as flores que trazem o espírito de Pedro de volta, e porque não o vento passando e abrindo as janelas ou as folhas passando e a chuva caindo sobre os amantes separados, como nos filmes de Sirk, que terminavam igualmente com fades resolvendo as cenas.
Porque é efectivamente um filme que nos faz acreditar no poder do cinema como algo que conta histórias. O realizador segue as personagens em travellings lentos e longos como o vento ou fantasmas que deslizam, desta vez com um olhar menos voyeurista que no anterior trabalho, mostrando o que é preciso mostrar, deixando acontecer aquilo que teria que acontecer. A maneira de o fazer é que marca a diferença. João Pedro Rodrigues revela segurança no desenvolvimento de uma personagem que é difícil de acompanhar porque ao espectador é complicado lidar com a loucura dos outros. A câmara não cai nas manias das personagens, preferindo por vezes desviar-se do acontecimento e aproximar-se dos seus olhos ou dos objectos que rodeiam a situação.
Tratando o melodrama com um estilo muito próprio, o realizador pega em algumas referências, Douglas Sirk é crucial, mas não se apega a elas. Mais parece que as reinventa para abrir caminho para o seu cinema.
Ao contrário de Sirk, em “Odete”a história não tem final feliz. Rui é o corpo que se vai desgastando no deboche e na tristeza. Odete é o receptáculo de uma criança não existe e a absorção de Pedro no seu corpo é levada até uma materialização final, com Odete cortando o cabelo, vestindo-se como Pedro e sodomizando Rui. Odete despersonaliza-se por completo ao assumir-se como outra pessoa e torna-se vítima da sua própria vontade.
A dor não acaba quando o desejo acaba. Porque aquilo que se deseja está morto.
Resta ao espectador aceitar esta loucura e histerismo com a dupla reacção de quem não sabe se há-de rir, ou tentar estender a mão.

copyright André Murraças

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Links relacionados:
Breakfast at Tiffany's
Robert Mapplethorpe/Flores
Rui Poças (director de fotografia do filme)
Site "O Fantasma" (inglês)
Melodrama
Histerismo
Gravidez Histérica
Douglas Sirk
"Moon River", letra da canção

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Agradecimentos:
Dinis


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1 comentário:

Anónimo disse...

estou convencido, vou ver o filme! bom comentario.