26 novembro 2007

a coisa do orgulho hetero

Muita gente tem perguntado a minha opinião sobre a questão da campanha da cerveja Tagus.
Aqui seguem algumas notas, apenas como apontamento e encerramento pessoal da questão:
- Esclareço antes de mais: a expressão "orgulho gay" leva-nos a 1969, quando um grupo de homosexuais se revoltou num bar chamado Stonewall contra os frequentes abusos da Polícia, só porque não era permitido ser/estar. Foi a gota de água que veio trazer, até aos dias de hoje, algumas reformas e calma mudança de mentalidades, direitos e deveres que os homosexuais não possuiam. Um trabalho em progesso. Daí esse orgulho. Há muita coisa que foi feita antes dos dias de hoje. É um peso histórico, não tem nada a ver com o desfilar ou não na Marcha. Isso é uma consequência, um lembrete. Metam isto na cabeça!
- Quando se usa a expressão "orgulho gay" é referente a essa luta, ao ter conseguido chegar aqui derrubando obstáculos que separavam (separam?) as diferenças.
- Por isso não gosto da campanha, porque deturpa ao olhos de quem não sabe o que é a noção de "orgulho gay", um facto histórico e relevante. E não confundir o actual "orgulho" com a sua raíz. É dela que falo. E duvido que os heteros, como muitos gays, saibam o que isso é realmente.
- É indiscutível que um grupo está acima do outro. Por isso, qualquer manifestação destas só o torna mais susceptível. E o que se quer é: todos ao mesmo nível. Indiferentes na diferença. Até no direito à cerveja.
- Os heteros não têm direito a um orgulho seu? Não, porque estamos a comparar coisas que são diferentes umas das outras. O orgulho gay foi(é) uma luta contra um poder hierárquico instituído. Os heteros não precisam de lutar por direitos que já têm. Por isso pergunto: orgulho hetero em quê? Até como conceito publicitário acho que não é muito válido.
- Mesmo que não existisse o "orgulho gay", promover um "orgulho hetero" não é lá muito saudável. Sobretudo porque se trata um público alvo jovem. E com álcool à mistura já estou a ver uma ou outra discussão mais violenta e desnecessária.
- Os mupis estão bonitinhos se bem que os miúdos são um bocado para o abichanado. (Desculpem mas tinha de dizer isto...)
- A contra-campanha feita pelos panteras rosa tem sentido como resposta. Mas acho que por vezes roça um quase desnecessário ódio.
- Sosseguem: a campanha da Tagus acaba de ser suspensa.
- Como diria o Jack Nicholson quando fez de Presidente dos EUA, recebendo os marceanos: Why can´t we all just get along?
- Mais importante: a Tagus conseguiu um feito. Passou de cerveja ranhosa à mais falada do momento, e em publicidade isso é o que importa. Sagres e Super Bock. Quem?

5 comentários:

/me disse...

Hmmm, nem toda a publicidade é boa publicidade. Ao contrário do que dizem... Acho que a Tagus não ganhou com a campanha, pelo contrário.

Aequillibrium disse...

=)

Análise clara e justa!

Otium disse...

André, não li muita coisa sobre esta cena idia idiota mas o que tu escreveste foi o comentário mais esclarecedor e esclarecido que li!!!! É pela cultura e informação que se faz a diferença! Um abraço...

Luis disse...

Primeira vez que comento neste blog e é para dizer que concordo letra por letra com o que escreveste. E nem sequer é a primeira vez ;)

Já agora, se te apetecer... http://lsoares.blogs.sapo.pt

André disse...

Ora, ora, obrigado. E já andava pelo teu blog há um tempinho. :)