A Single Man, de Tom Ford
A Single Man - Um filme fora de modas :: texto de André Murraças in Revista Parq 18, Março 2010 (
online aqui)


O CHOQUE
Quando se anunciou que o criador de moda Tom Ford – dono da sua própria marca e responsável por levantar da bancarrota a casa Gucci – iria realizar um filme, a má vontade de terceiros não se fez esperar por ver. Perguntava-se: pode um criador de moda fora do mundo do cinema realizar um filme?


Há vários casos, sobretudo de artistas plásticos, que se meteram no universo cinematográfico: Hunger, de Steve McQueen, o épico Cremaster de Matthew Barney, os vários filmes de Julian Schnabel e até o recente de Sam Taylor-Wood sobre o jovem John Lennon, só para falar em alguns. A outra grande questão foi se este seria um filme cheio de estilo em detrimento de uma história. Mas não, A Single Man, actualmente em exibição com o torcido título de Um Homem Singular, não é uma produção de moda tirada de uma revista e atirada para o ecrã. É um filme fora das passerelles, que quer ser cinema e sem ser pretensioso. O projecto foi financiado pelo próprio Tom Ford que também o realizou e adaptou, a partir do romance de Christopher Isherwood. A história centra-se num dia na vida de um professor que perde o seu companheiro num acidente e ao fim de mais de 16 anos de vida conjunta. Obviamente, não se poderia ficar por algo exclusivamente visual.


ISHERWOOD/FORD
A ligação entre o escritor Christopher Isherwood e o agora realizador Tom Ford é, ela sim, singular. O escritor cresceu maravilhado com o cinema – são dele as histórias I Am a Camera, que deram origem ao filme musical Cabaret, de Bob Fosse. Já Tom Ford sempre gostou de mulheres e de homens bem vestidos, sobretudo no cinema - é fã de Hitchcock e portanto aquele cartaz gigante com os olhos de Janet Leigh em Psycho que encontramos no filme não é por acaso. Isherwood publicou o romance originalmente em 1964, apanhando as revoluções cubanas e sexuais. Tom Ford realiza o filme numa altura em que o casamento gay é alvo de grandes transformações nos EUA. A liberdade que Isherwood e tantos outros ingleses encontraram na costa norte-americana há décadas atrás, Ford também a procura agora, num aspecto pessoal, social e artístico. O abafamento familiar e a falta de interesse na aprendizagem que o professor desempenhado por Colin Firth vê nas suas aulas ao tentar ensinar os “medos” do mundo moderno, são os de sempre. E isso vai para além de qualquer formato artístico.


A VISÃO DE FORD
Numa entrevista, Tom Ford dizia que a moda muda depressa e dura pouco. A novidade é efémera. No cinema, isso não existe. Diz ele, e nós sabemos, que os filmes são para sempre. Ao cinema, pelo menos ao seu, Tom Ford, o criador de moda, aqui realizador, aplicou-lhe um formalismo sério mas com rasgos na contenção da personagem de Colin Firth. A questão da cor também é importante. O trabalho de fotografia acentua isso através das aberturas à saturação das cores a quando do toque humano e ao seu fecho quando se volta à dor da perda do amor. Dentro daquela tristeza, tudo é bonito de ver e sentir, num sentido poético. Romântico talvez, como diz uma das personagens. Há equilíbrio entre o visualmente sofisticado de criador de moda, com uma visão muito elegante de realizador. Pode-se até incluir este trabalho num conjunto de filmes onde a direcção artística, que é como quem diz a imagem do filme através dos seus cenários, decoração e guarda-roupa, tem grande peso. Lembram-se de The Talented Mr. Ripley, qualquer Hitchcock, Velvet Goldmine, Marie Antoinette, Gattaca, Moulin Rouge ou Dogville? Em A Single Man, há um fato impecável para Colin e outro vestido de noite para Julianne. Reinam o eyeliner e o nó de gravata ao estilo Windsor. Todos os alunos daquela escola estão irrepreensíveis, sejam eles rebeldes mods ou filhos de classes altas. Também é verdade que no filme não há uma mulher despenteada (da senhora do banco à aluna, sem esquecer Julianne Moore) e que a casa de vidro de George Falconer (Colin) não tem um objecto desadequado. Isso acontece porque Tom Ford chamou os responsáveis pelo visual da série Mad Men, mas também porque ele não se esqueceu das suas origens. Se isto não vos convence, Tom Ford consegue transformar um momento de privacidade numa casa de banho em algo decorado com madeira escura corrida e toalhas rigorosamente dobradas em prateleiras, mesmo ao lado dos toalhetes perfumados e acompanhado por um livro de capa dura. Percebe-se todo esse cuidado. Naquilo que é visto, mas também no que é dito. Os diálogos são inteligentes e com o tom suficiente para revelarem várias camadas. Temos portanto um filme que não é demasiado moda, nem demasiado cinema. E que, sobretudo, permite ao espectador ter tempo. Tempo para contemplar momentos íntimos de preparação matinal, gestos do quotidiano, pormenores de guarda-roupa, os vizinhos do lado e olhares que se trocam. Tempo para os vários medos daquele homem sozinho. Medos que são guardados, lidos, escritos, ouvidos e até confessados. Medos que com ou sem estilo fazem da visão de Tom Ford algo muito singular. E isso, na moda ou no cinema, por vezes, é raro de ver.
