
"The realm of possibility", de David Levithan





The Last Days of Disco é um filme incluído numa trilogia da autoria de Whit Stillman de onde ainda fazem parte Metropolitan (1990) e Barcelona (1994). O foco está sobre os jovens norte-americanos, relativamente abonados e com os sonhos de qualquer futuro advogado, em idade pré-adulta e cheio de ambições profissionais e familiares. Serão apenas filmes que os que foram jovens nos anos 80 estimam nos anos 90? Ou algo que pode ser visto nos dias de hoje pelo flair que nunca desfrutámos? Talvez isto tudo misturado com algo mais. Good times, sem dúvida.
No site da The Criterion Collection (www.criterion.com) – os amantes de cinema para ver em casa podem perder-se numa amazónia de DVDs em edições de luxo, com cópias restauradas, comentadas e recheadas de extras. Há Polanski, Fellini, Ray, Jarmusch, Godard e muitos outros. Por entre tanta coisa boa destaque-se, sem desprimor para os restantes, o filme The Last Days of Disco, escrito e realizado por Whit Stillman. O filme é de 1998 e mostra-nos a vida diurna e nocturna numa Manhattan em começo dos anos 80. A sua edição pela Criterion há uns meses foi motivo para redescobrir esta pérola e aumentar todo o hype à sua volta. O MOMA de Nova Iorque costuma projectar o filme e tem uma cópia honrosamente guardada no seu acervo. Há grupos de fãs na internet e festas anuais exaltando esta sátira passada no início de uma década e no fim de uma era. Porquê?
Confessions on a Dance Floor
No caso de The Last Days of Disco há muito por onde nos apegarmos. A história gira em torno de Alice e Charlotte, interpretadas por Chloë Sevigny e Kate Beckinsale (dois excelentes motivos para falar no filme!). São o oposto uma da outra e estão empregadas numa reconhecida editora, ambicionando o topo. Ainda contam com a ajuda da família mas não se pode dizer que estão mal para quem está a começar. Frequentam um muito célebre club (é arriscado traduzir para discoteca). No filme, esse local não tem nome mas trata-se de uma suposta referência ao Studio 54. Por ali há todo um grupo composto por yuppie scum, fashionistas, drag queens, rapazolas musculados sem t-shirt e divas esquecidas, dançando os últimos dias do disco, no meio de bolas de espelho e chuva de confettis dourados. Nesta babilónia mista, Alice e Charlotte dão-se com Des – o engatatão e gerente da do sítio, que finge ser gay quando se quer ver livre das namoradas, e Jimmy, um novato publicitário, muito mal recebido naquele meio. Há também Josh, um homem das leis que vai acusar o recinto de tráfico de droga e lavagem de dinheiro. São personagens com vidas insatisfatórias e preocupadas, apresentadas com seriedade e até alguma ternura. Poderíamos achar que fazem jus ao ambiente onde as vemos. Que reina alguma superficialidade e desdém. E até é quase verdade. Mas bem vistas as coisas estamos mais perto da ideia de comédia de maneiras à inglesa do que de um exercício documental sobre o fim desse tipo de música e desses locais. Aqui há homens e mulheres a tentarem perceber o que é isso da atracção, do amor, das ascensões sociais e profissionais. São jovens e aspiram a boas vidas. E espertos o suficiente para misturar nas suas conversas temas como o escritor J. D. Salinger, a política de então, a busca pela definição de virgindade, a existência ou não de yuppies, o nazismo como metáfora de ser expulso de um club, ou como o filme da Disney, A Dama e o Vagabundo, foi feito para induzir secretamente às crianças a ideia de casamento. Eles no fundo sabem do que falam. E falam muito bem em dinâmicos e inteligentes diálogos. São elas, estas personagens, quem realmente dança. O disco existe como música e ambiente. Mas são as inquietações destes rapazes e raparigas que cantam mais alto, indo do mais desligado ao mais afincado, emocional e profissionalmente. Nova Iorque é difícil. A vida, com ou sem música, é difícil. Eles têm consciência disso. Percebem que a sua juventude, talvez como o disco, é uma passagem para outra coisa. Que esse esplendor e brilho acabarão mais cedo ou mais tarde por se transformar em algo diferente.
Disco Sucks?
Mas então não há disco? Claro que há. Pelo menos um terço do filme é passado no tal sítio sem nome, forrado a veludo vermelho, cheio de colunas barrocas e repleto de ávidas criaturas da noite. Escuta-se e dança-se Alicia Bridges, Diana Ross, Chic, Eveyln "Champagne" King, Sister Sledge, Harold Melvin & the Blue Notes, Carol Douglas, Michael Zager Band e Amy Stewart. Diz-se com humor que os EUA eram uma wasteland antes do disco. Recorda-se o Disco Demolition Night, um evento que ocorreu em 1979, durante o intervalo de um jogo e onde foram queimados uma série de vinis em protesto contra o género musical em voga. Aquela música, aquela moda, aquele estilo de vida está lá, do ponto de vista daquelas personagens. E elas, sobretudo Alice e Charlotte, dançam e procuram quem também saiba dançar. Há uma fruição do tempo, do espaço e do som. Elas saboreiam-na até num quarto de hotel quando são seduzidas ao som das canções de então – é a famosa cena em que Alice e Tom dançam com uma sensualidade única. Ou mesmo o Love Train que se ouve e se dança dentro da carruagem do metro no final do filme. E é o disco que todos eles honram mesmo quando dão por si subitamente desempregados. Diz uma das personagens: Disco will never be over. It will always live in our minds and hearts. Something like this, that was this big, and this important, and this great, will never die. Oh, for a few years - maybe many years - it'll be considered passé and ridiculous. It will be misrepresented and caricatured and sneered at, or - worse - completely ignored. People will laugh about John Travolta, Olivia Newton-John, white polyester suits and platform shoes and people going like this. But we had nothing to do with those things and still loved disco. Those who didn't understand will never understand: disco was much more, and much better, than all that. Disco was too great, and too much fun, to be gone forever! It's got to come back someday. I just hope it will be in our own lifetimes.
Quem diria que o disco daria para falar de tanta coisa...





