28 fevereiro 2012

hoje descobri um poeta novo

O ODOR DAS ALFAVACAS
Meu pai falava do odor das alfavacas
e eu corria ao dicionário («Planta labiada, semelhante
ao manjericão…»), logo decepcionado
Imaginava uma vaca primordial
depositária de bíblicos segredos
capaz de mudar o curso das coisas
de ser fundamental, talvez, na minha vida
mas nada disso: havia-as de caboclo, de cobra, dos montes,
do campo, de cheiro (certamente as do meu pai)
e nenhuma referência à cornuda que apascentava
a minha imaginação
Aprendi assim a desconfiar das palavras
e da realidade
a ver como ambas nos enganam
sem qualquer piedade

in, A Mão na Água que Corre

Sem comentários: