13 julho 2012

é com cada azar
Hoje, sexta, às 23h46 na RTP2 passa o documentário sobre François Sagat.

Escrevi sobre ele para a PARQ há uns tempos. Podem tentar ler aqui em baixo.

François Sagat // À cause du garçon // texto de: André Murraças

François Sagat. A sua vida para além do porno daria certamente um interessante documentário. É um dos mais peculiares actores da pornografia gay, mas não entrou neste mercado só para pagar contas. Saiu de casa aos 19 anos para estudar moda, foi assistente de Paco Rabanne, Tierry Mugler ou da casa Givenchy, e hoje é modelo exclusivo da produtora Titan.

Há anos que acompanho afincadamente a vida das estrelas porno. Quem acha que se trata apenas de objectos de satisfação nunca as seguiu fora do ecrã. Aqui por casa guardo numa caixinha artigos, fotos e páginas da Internet sobre todas elas. Os vídeos importam pouco. Prefiro os escândalos, as mortes e os insucessos. Da Tracy Lords que brilhou brevemente fora da indústria para adultos em filmes como Cry Baby e Serial Mum de John Waters, ao decadente John Holmes, dos primeiros passos de Stallone em colchões de hotel manhoso, à transformação do actor Rocco Siffredi graças aos escatológicos filmes da realizadora Catherine Breillat. Sem esquecer Jenna Jameson, que negoceia actualmente com Scarlet Johanson a adaptação da biografia How to Make Love Like a Porn Star: A Cautionary Tale, ou de uma certa italiana metida em política.



Uma das minhas mais recentes aquisições é François Sagat. A sua vida para além do porno daria certamente um interessante documentário. Convém explicar primeiro que falo de um dos mais peculiares actores do mercado da pornografia gay. François Sagat não é só mais um que faz uns filmes para pagar contas. Este francês saiu de casa aos 19 anos para ir estudar moda e conseguiu ser assistente de Paco Rabanne, Tierry Mugler, Jeremy Scott e até das casas Givenchy e Balenciaga. Passou pela V magazine e Vogue, e colaborou com Mario Testino, Inez Van Lamsweerde e Lagerfeld. Um dia fartou-se. Andou perdido até ser descoberto num chat. Fez quase vinte filmes de onde se destacam Lebanon, H20, Strecht e Arabesque. Hoje é modelo exclusivo da produtora Titan.
Sagat é diferente. No seu primeiro filme surgiu de cabeça rapada, com uma tatuagem definindo-lhe o cabelo curto à latino e que se tornou na sua imagem de marca, juntamente com a estrela e lua também tatuadas mas nas costas – coisa sem significado político, diz ele. O rapaz estava para ficar. Formaram-se clubes de fãs e o público ia em massa às festas em discotecas e lançamentos de DVDs para vê-lo ao vivo. Seguiu-se o prémio de Best Performer nos GAYVN Awards de 2007. A vida corria-lhe bem e o amor apareceu quando se envolveu com o colega Francesco D’Macho. Durante meses, os dois deixaram todos a acreditarem na possibilidade do afecto dentro de tão malograda actividade. Mas um dia a paixão foi-se, talvez por efectivas incompatibilidades. Sagat seguiu com a sua vida, trabalhando de forma reservada.
Preparando ou não a sua saída do mercado, o actor começou a desenvolver uma linha de roupa chamada Fade, para onde ainda hoje desenha t-shirts inspiradas em símbolos religiosos. As colecções venderam bem. Sagat fez uma pausa. Durante meses ninguém soube nada dele. Surgiu então o seu blog oficial e também o seu myspace. Aí começámos a descobrir a queda por estrelas de Hollywood, o gosto pela fofoca (segue atentamente Britney Spears e Paris Hilton), a música de Marylin Manson e The Gossip, e a cinemateca que vai de Drácula a filmes com Angelina Jolie.
De repente, a bomba explodiu no mundo da moda e também na indústria porno. O estilista alemão Bernard Wilhelm convidou François Sagat para ser o modelo da sua colecção de homem para o Verão de 2007. Um recheado calendário seguido de uma exposição da autoria do fotógrafo Lukas Wassman tornaria Sagat na coisa mais falada da semana de moda em Paris. A colecção era inspirada em Peter Berlin (estrela porno dos anos 70, fotógrafo e também modelo), misturava o wrestling com super-heróis e foi vista como uma provocação ao governo norte-americano. Wilhelm transformou a nossa imagem de heróis dos quadradinhos em ridículas figuras de estatura entroncada, vestindo licras e tafetás brilhantes. Ao mostrar o modelo/estrela porno, sem pudor em revelar as partes íntimas do corpo e embrulhado numa bandeira, Wilhelm deitou a baixo todas as convenções que temos dos super-heróis e também as dos modelos. Bernard Wilhelm pouco se ralou com as reacções. Foi assistente de Vivienne Westwood e Stella McCartney, portanto não é novo nestas andanças. Dele já vimos de tudo como, por exemplo, andar a recrutar modelos nas docas de Antuérpia ou doar as suas colecções por inteiro a museus.
Sagat achou piada a tudo isto, mas com reservas. Para ele o mundo da moda pode ser tão cruel como o da pornografia. Os modelos também não recebem todas as royalties, o interesse é efémero e vive-se brevemente como um rei. As palavras sábias só podem ser de alguém que sabe bem por onde anda.
E foi assim que, no final do ano passado, Sagat se retirou da pornografia, apesar de dizer que se encontra apenas ausente. Actualmente, dedica-se a longas sessões de fotografia onde é ao mesmo tempo o fotógrafo e o fotografado, colocando depois as imagens no seu blog, numa assumida atitude narcisista. Para além disso, tem em mãos dois projectos importantes. Primeiro, o Strip World Erotico Club Show, um one man show que circula por discotecas e onde Sagat, de forma artística, se despe com vídeos evocando a anterior profissão ao fundo e onde se lêem frases de canções de Madonna. Ali quem manda é ele. O conceito é seu, a parte plástica também e o autor faz de si mesmo, em performances igualmente documentadas e postadas no seu blog. Acredita estar na sua fase mais criativa. Diz ele que precisa disso senão desaparece. Por isso, desenvolve todas estas actividades paralelas que não devem ser entendidas como alguém a aproveitar-se da fama. São todas partes de um homem multifacetado que entrou para a pornografia tão depressa como saiu. E para que não restem dúvidas, está previsto para o final deste ano… uma biografia. Há tanto para contar. Quando for publicada, e depois de a ler atentamente, guardo-a aqui na minha caixinha das estrelas. Fica a fazer companhia à restante constelação.

Sem comentários: