o saque
Numa altura em que a cidade e o país estão a saque, a vinda do
Teatro Nacional de S. João a
Lisboa não poderia ser mais acertada. O encenador Ricardo Pais é um dos meus preferidos, embora tenha visto recentemente algumas coisas que me deixaram menos contente.
Mas este
O Saque, do super queer
Joe Orton, traduzido pela Luísa Costa Gomes, é um deleite. O texto não é fácil. A comédia é sempre difícil. E então a de Orton. Mas os actores marcam bem o ritmo, sem arevistar a coisa. O ambiente é macabro, invadido com referências
lounge e de telenovela - ou será antes teatro-televisivo? É mórbido, é divertido, é camp. Há fumos a rastejarem pelo chão sempre que se fala de morte, olhos de vidro a saltarem pelas pirosas carpetes, close-ups cinematográficos e um circo de luzes amaricadas, que dão o tom final ao espectáculo. Bem dirigidos, bem vestidos, bem falantes, os actores cumprem e plasticamente o espectáculo é interessante, com uma encenação muito rotativa, onde as portas do cenário batem sempre com muita força. E há uma morta que circula de um lado para o outro, muito bem morta e feita por uma viva, que é a cereja deste descalabro cómico. Ri do princípio ao fim.
Lembrei-me da versão super-pop que a
Cornucópia levou à cena de
What the Butler Saw. Lembrei-me do filme do Frears sobre o Orton. Da Lia Gama há pouco tempo a fazer de mãe, no Taborda. E de como a vida deste autor acabou por ser quase igual à que escrevia. Sabiam que, no topo da fama, o companheiro de
Joe Orton o matou, esmagando a sua cabeça vezes sem conta, num ataque de loucura, e suicidando-se de seguida?